#tempmad – Temporal Madeira – 20 Fevereiro 2010

Agora que o pior passou, sinto necessidade de demonstrar um pouco alguns sentimentos que não me foram possíveis demonstrar no Twitter até agora. Sentimentos que hoje se misturam, sentimentos de vários tipos hoje, mas que, no início, se limitaram a um: medo.

No Sábado 20 Fevereiro, estava ainda na cama, a “sornar”, quando comecei a aperceber-me que a chuva estava intensa. Por duas vezes, ouvi-a bater no tapassol com ruído de granizo, mas como era sábado e não trabalho, fui-me “deixando ficar”. Ás tantas, no entanto, comecei a achar que a chuva estava demasiado intensa há muito tempo, sem parar. Decidi levantar-me, já ia a manhã adiantada. Como agora recentemente tenho iPhone e net sem fios em casa, ando meio maniada com o Twitter e ligo logo o TweetDeck no iPhone quando me levanto, para ver sobre o que falam os que sigo.

Já não consigo lembrar-me quem li, nem especificamente o que li. Sei apenas que fiquei logo ciente de que algo de muito grave se estava a passar no Funchal, nas ribeiras. Quis ligar a TV mas apercebi-me que não tinha electricidade em casa. Liguei o portátil, felizmente com bateria carregada,  e percebi logo pelos primeiros tweets a gravidade da situação.

Pedi logo para usarem a hashtag #temporal, mas vi de imediato que já havia essa hashtag com outras notícias que nada tinham a ver com a actual. Criei outra e pedi logo para corrigirem para essa, que ficou a definitiva: #tempmad.

A adesão foi imediata. Logo começaram a chegar as primeiras informações, assustadoras. Liguei para minha mãe, TMN não tinha rede. Pelo fixo, ainda consegui falar com ela. Estava bem e sem sequer qualquer percepção de perigo pois na zona dela, nada de grave aconteceu. Como estava quase sem saldo no meu cartão Vodafone,  liguei para a única irmã que estava em Lisboa e pedi-lhe que me carregasse logo o telefone no multibanco. A partir daí, comecei a telefonar a todos os meus outros cinco irmãos; vivemos todos espalhados por várias zonas do Funchal e arredores e um deles em Machico. A primeira irmã que liguei (S. Gonçalo) avisou-me logo que as estradas estavam com derrocadas pois meu cunhado tinha saído de casa (para ajudar um amigo que já tinha água dentro de casa) e quase tinha sido apanhado na derrocada. Avisou-me logo que não conseguiam passar para o Funchal porque a estrada estava interrompida e chovia muito, e que tinham sido avisados que a sua fábrica tinha sido danificada mas nem conseguiam lá ir.

Um após um, fui conseguindo contactar irmãos, mas faltavam dois: uma que vive na zona da estrada Luso-brasileira, numa estrada inclinada que vem directa das Babosas, uma das zonas onde houve várias mortes, muitos carros arrastados; outro em Machico. A primeira, só consegui contactar perto das 18h00, o outro não consegui nesse dia mas tive informação que estava bem. Com a certeza de que a família mais chegada estava bem, concentrei-me ainda mais no Twitter.

Logo que a electricidade foi reposta, julgo que seriam umas 12 ou 13 horas, liguei a TV e a rádio. A TV nada transmitia da situação. A rádio já estava a transmitir tudo. O pequeno aparalho rádio nunca mais deixou de estar junto a mim. Foi através da rádio (Antena 1 Madeira) que fui recebendo as informações. Como me apercebi logo que não havia comunicações ou estavam complicadas, comecei a fazer a transcrição do que ouvia pela rádio. De imediato, muitos emigrantes começaram a colocar perguntas pois não conseguiam nem comunicar com ninguém, nem tinham acesso à RTP-Madeira ou nacional.

E assim nasceu este fenómeno que foi o #tempmad!

Se vos disser que estive no Twitter quase 48 horas de seguida e que nem me lembro do que twittei, talvez não acreditem! Comecei também, pelo feedback que comecei a ter mas, principalmente, pelos pedidos de informação e ajuda que comecei a receber, a sentir a responsabilidade de estar ali, de tentar dizer tudo o que ouvia na rádio, de transmitir, de ajudar, de canalizar ajuda.

Sábado foi o caos. No domingo já estava muita gente operacional no centro do Funchal. Na segunda-feira já as entidades coordenadoras (Protecção Civil e Governo Regional) estavam perfeitamente organizadas, com todos os meios operacionais no terreno, com informação possível, com linhas de apoio, enfim…a logística toda. Apesar de tudo, muita gente do exterior não tinha facilidade de obter informação e comunicações continuavam impossíveis. A ajuda continuava a ser necessária. No Sábado e Domingo telefonava dos meus telemóveis mas quase sempre não obtinha ligações, na Segunda-feira já a empresa me disponibilizou o telefone do escritório (não fica em zona atingida), que utilizei para localizar familiares em busca dos seus.

Só ao final do dia de Segunda-feira, à noite, quando cheguei a casa do escritório, ao me sentar no sofá para ver as notícias na TV é que senti todo o meu stress manifestar-se em forma de cansaço físico, duma forma que nunca tinha sentido. Apercebi-me que a tensão que tinha sentido era muita e então precisei descansar. Devo dizer que descansar, no entanto, deu-me e ainda me está a dar, uma sensação de culpa por sentir que tantas pessoas, neste momento, estão a trabalhar de forma intensa, outras estão traumatizadas por terem perdido familiares ou casas, outras ainda estão com medo por terem as suas habitações em risco de enxurrada ou desabamento…

Os sentimentos são múltiplos, nestas situações. De alegria quando se encontra uma pessoa que um familiar procurava. De satisfação por todas as palavras gentis que se recebe online. Mas o que mais retenho é o que me lembro de ter sentido primeiro: o medo. Medo de ter perdido familiares ou amigos, medo do simples acaso que faz com que uma pessoa morra ou escape a uma tragédia que ocorre num sítio onde todos os dias passo e passamos,  despreocupadamente, desatentos ao facto de que a vida é feita de circunstâncias temporais e espaciais. Estar aqui ou estar ali. E num segundo tudo pode mudar.

Lamento a dor dos que perderam familiares ou amigos e também dos que perderam os seus haveres, na maioria pessoas de poucos recursos.

Retenho o empenho com que os membros do nosso governo reagiram e colocaram nas soluções para tanta situação caótica que a população enfrentou.

Amo a minha cidade e a minha Ilha, onde estão as minhas raízes. Sei que voltará muito em breve a ser bela como sempre foi. Agora com uma beleza suplementar: a da solidariedade que nunca se pensou fosse tão grande neste povo, por vezes rude, mas sempre, sempre trabalhador e amigo.

Não sou jornalista nem pretendi substituir-me a ninguém. Utilizei os meus conhecimentos do twitter e a minha experiência profissional para transcrever/escrever. Agi apenas por impulso, na qualidade de cidadã, madeirense, funchalense de nascimento e de coração.

Obrigada a todos os que ajudaram.

Funchal, 27 de Fevereiro de 2010

9 thoughts on “#tempmad – Temporal Madeira – 20 Fevereiro 2010

  1. Tenho família no Funchal mas só ao início da tarde de Sábado é que percebemos, nós, os do lado de cá, a dimensão do que se estava a passar. Tirando os problemas com a água e luz, nada de grave aconteceu aos meus. Não a seguia no Twitter, sendo certo que o motivo principal pelo qual a sigo é sem dúvida este: o seu lado humano, a sua incomensurável disponibilidade na ajuda, abnegada ajuda. Também por isso, muito obrigada!

  2. Bravo, Linda! Nós, os que à distância acompanhámos o seu esforço, nunca esqueceremos esse trabalho meritório e acredite, tudo faremos para que o mesmo seja reconhecido pela Região e pelo País. Um abraço

  3. Madalena Vidal says:

    Segui-te não digo essas 48 horas mas quase. Não sou madeirense, não me lembro sequer de ter amigos chegados na Madeira, mas não consegui arredar pé. Já te dei 20 vezes os parabéns pelo trabalho fantástico, mas dou-tos mais uma vez e acho que são poucas.
    M.

  4. Realmente foi um evento que nos vai marcar a vida por diversas razões, para uns o alivio sentido ao saber que todos a nossa volta conseguiram sobreviver , para outros o profundo desespero ao saber que meio mundo tinha desabado por perderem parte parcial ou a casa completa ou/e perderem um ente(s) querido(s)…
    Eu pessoalmente por muito que tente jamais vou conseguir me colocar no lugar de algumas pessoas que perderam tudo o que tinham…
    Força Linda

  5. Isabel Camilo says:

    Obrigada por tudo! Estive a seguir-te via twitter. Foi uma grande ajuda para perceber. Obrigada em meu nome e de outros!

  6. marco castro says:

    so para diser MUITO OBRIGADA pela o trablho que tem feito. Eu estou em Londres. e eu tambem comecei a usar o twitter. gracas a si pude manter informado e ao mesmo manter outros madeirenses aqui radicados informados. estanho tado ligado praticamente ligado ao twitter 18 horas por dia so hoje a tarde consegui dormir mais que 5 horas! Eu tenho um amor muito grande pela a minha querida Madeira. e eu tenho toda a certeza que ela voltara a ser aquela ilha linda que conhecemos. Outravez MUITA OBRIGADA.

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