porque ainda m’arregalo…

A vida é frequentemente surpreendente e tantos anos passados desde que vi a luz do dia pela primeira vez, os meus olhos ainda se abrem a cada nova visão, a cada momento surpresa, a cada emoção que não se consegue conter.

Foi num destes momentos de abrir os olhos até à lua que encontrei a minha antiga colega de trabalho de há vinte anos, a I., que trabalhou comigo na primeira empresa onde comecei a minha profissão. Era vivaça, a I., bastante mais extrovertida do que eu, e em comum acho que tínhamos mesmo, apenas, o facto de sermos duas jovens de vinte anos que ali começavam a sua vida mais séria.

Na altura já ambas casadas, a I. seguiu a sua vida para um lado e eu para outro, não sem que antes ainda lhe conhecesse o filhote, o AP.

Vinte e tal anos depois, por incrível que pareça numa terra tão pequena onde nunca mais nos havíamos encontrado, cruzámo-nos de novo num cabeleireiro. Encontro tão normal e trivial entre mulheres e pura coincidência do dia-a-dia. Foi quando, com um sorriso nos lábios e com algum desprendimento, a I. me contou que aquele bébé, que eu tinha conhecido há vinte anos, havia crescido, havia feito 17 anos e, um certo dia, por um daqueles momentos do destino e brincadeiras da juventude que ninguém espera, caíra da varanda de casa e morrera.

O mundo parou ali, naquele momento, naquele cabeleireiro onde tantas histórias triviais se cruzam.  De repente, fiquei estupefacta, como se não fosse possível uma vida assim se perder sem que eu tivesse dado por isso. Mas a I. deu por isso. Custou-lhe as tripas e a alma, custou-lhe algo que eu nunca poderei ser capaz de descrever porque eu nunca tive um filho e eu nunca perdi um filho.

O luto ainda não está ultrapassado e sente-se a cada brilho nos olhos quando a I. fala do seu AP. Mas uma mãe é mãe para sempre. E como forma de sentir a dor ultrapassando-a, mas sem querer esquecer os 17 anos de alegria que teve, a mãe continua a fazer um bolo de anos,  a chamar os amigos, a cantar uns parabéns com letra adaptada. Eu estive presente nesse momento este ano, eu que nunca sequer tinha cantado os anos ao AP. Senti-me honrada. A I. voltou a casar no dia de aniversário do filho para ter mais uma razão de não viver o dia com tristeza mas sim com alegria.  No dia do aniversário do filho, este ano, tornou-se madrinha de protecção duma criança em Inharrime, Moçambique. E tem assim mais uma razão para continuar a ser mãe.

Porque me comoveu esta vida, e porque uma pessoa só morre quando morre na nossa memória, um viva para sempre ao AP, que fez 22 anos no dia 2 de Junho de 2010.

Para a I., com muito carinho e toda a minha admiração.

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