o verão tem destas coisas…

O Verão é assim mesmo, dá-nos vontade de fazer coisas impensáveis noutras alturas do ano. Como ler “Werther”, de Goethe, por exemplo. Impensável!

Pois é! E não é que hoje, a preparar-me para umas horas de pura vadiação à borda da piscina, olho para a prateleira dos livros esquecidos, à procura de algo para levar para ler, algo assim…interessante… e o que escolho?!?

Dois livros que nunca tinha tido vontade de ler! O primeiro, “A inteligência” (Ian J. Deary) ,  O segundo livro foi “Werther”, de Goethe. Ambos, porque estão há imenso tempo na prateleira, à espera de um daqueles dias de nada mais ter para ler…e hoje piscaram-me o olho.

Dei uma vista de olhos ao primeiro: um ensaio sobre a inteligência e suas variantes na espécie humana e ao longo do envelhecimento desta. Após algumas páginas, revela-se como um estudo interessante, um pouco técnico em algumas partes, mas de leitura fácil até. Não é muito emotivo, é mais analista e portanto, factual, numérico.

Peguei no segundo, “Werther”, uma das histórias de amor da literatura clássica mais conhecidas mas que sempre me tinha cheirado a desgraça-da-choradinha-de-morrer.  Surpresa! Goethe revelou-se-me um prazer de leitura! …mas daqueles prazeres suaves, daqueles que só depois de se começar a saborear é que nos fazem primeiro descobrir que gostamos de o ler, depois faz-nos sorrir para dentro e, de repente, estamos já imersos na história e na vida das personagens, revendo-nos em sentimentos que alguma vez na vida já foram nossos, sentimentos clássicos numa leitura clássica também, mas fluida, suave, agradável, simples. Uma surpresa, para mim, que nunca tinha sequer folheado Goethe.

E, depois, numa escrita que é de 1774, frases que poderiam ter sido escritas nos dias de hoje, como esta, que transcrevo:

“…tenho pensado inúmeras vezes nessa tendência do homem para se expandir livremente, para fazer constantemente novas descobertas, para se transportar a toda a parte onde não está, e, por outro lado, nessa íntima propensão que ele tem para se deixar voluntariamente prescrever limites, para seguir maquinalmente a rotina do hábito, sem se preocupar com o que se passa à sua esquerda ou à sua direita.”

Intemporal!

E depois, o amor! Ah… as histórias de amor! tão iguais por dentro ao longo do tempo, tão diferentes por fora apenas nos detalhes de época.

“- O pior – disse a mulher do pastor – é que não temos o coração nas mãos. Há coisas que dependem do corpo.”

Já vos vejo de boca aberta e a abanar a cabeça para um lado e para o outro, e tzz tzz tzz coitadinha dela! o sol deu-lhe cabo da cabeça :)

Sim, sou twitteriana! mas também ainda amo os livros em papel, herança cultural do meu pai, que era encadernador e um artista na arte de fazer dum livro velho um fantástico exemplar em pele com letras douradas, e que me sentava ao seu colo quando estava a encadernar as National Geographic Magazine e me mostrava as fotos das girafas, dos tigres, dos leões, das aranhas, todo um mundo enorme que eu desconhecia e ele também. Assim me cultivou ele o prazer de ler, de aprender, de descobrir.

Descobrir!…hoje foi a vez duma leitura inesperada que me levou a outros tempos e ainda agora, nestas explicações todas, me trouxe memórias tão gratas…

O Verão tem destas coisas ………….

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