existem as luzes mas também existem as trevas

A ultima semana na Madeira ficou marcada por notícias de violência de que esta crónica no Diário de Notícias local dá um bom retrato.

Não vale a pena tentar enganar cegos: a Madeira não é só um cantinho do céu, tem também o seu pedaço de inferno, como todas as regiões do mundo. Nas regiões mais pequenas e habituadas a ser um paraíso de vida ao longo dos tempos, estas notícias parecem quase ofender quem elogia o que de bom temos. Eu elogio o que temos de melhor, faço questão de promover o que a Madeira tem de bom e de excelente, mas não sou cega! Vejo também o que de mau temos cá dentro e que não é diferente do que de mau existe lá fora.

E ultimamente, uma das coisas que realmente me tem chamado a atenção e chocado é o crime violento, coisa que quase não existia na vida citadina do Funchal e que agora tem sido noticiado. Não existia, realmente, este número elevado de crimes na nossa cidade e muito menos com os contornos que estão a tomar, em especial pelo facto de serem cometidos com armas de fogo e à luz do dia, em artérias movimentadas da cidade.

Outro dos casos que tem merecido especial atenção dos media locais e que tem chocado a população é o número crescente de suicídios, que é notório. Este tipo de morte é especialmente chocante numa ilha pequena e tem vindo a crescer, indesmentivelmente, atingindo em especial pessoas da chamada “classe média” (ou o que resta deste conceito). Chocante é o facto de estar a atingir pessoas novas, como foi o caso recente do rapaz de 14 anos e do outro de 16. Chocante o facto de estar a atingir pessoas que têm, aparentemente, uma vida social dita normal (e não pessoas registadas como tendo problemas de comportamento ou personalidade). As razões serão várias e julgo que devem ser procuradas não na crise económica que se vive mas, essencialmente, na crise de valores que a nossa sociedade actualmente apresenta e na pressão que esta sociedade de valores meramente económicos exerce sobre aqueles que ainda os têm, também.

A violência local incidental é também a dos acidentes viários mortais nas estradas da Madeira. Onde antes havia apenas batidas, choques, brigas por pequenos riscos na lata do carro, hoje assiste-se na Madeira a algo que não existia há cerca de dez anos: mortes violentas por excesso de velocidade nas chamadas vias rápidas que agora atravessam a ilha. Porque se trata, acima de tudo, de acidentes por excesso de velocidade e por alcoolismo na estrada, há que repensar a cidadania e muito há a fazer nesse sentido nesta nova população citadina da Madeira, que parece estar a adoptar os comportamentos globais que vê lá fora. Isso, não é ser desenvolvido! não é “ir lá fora aprender como se faz”, como se costuma dizer na linguagem do ilhéu! Veja-se a quantidade de gente, jovem mas também adulta, que ingere ponchas na noite madeirense e que conduz logo a seguir.

O fenómeno do bullying nas escolas também já é uma realidade indesmentível! Neste particular, são apontadas a dedo algumas escolas pela própria população estudantil, como é o caso da Escola Gonçalves Zarco, que já é referenciada por adolescentes como “a escola onde há mais porrada” (cito um adolescente, de que não revelarei a identidade para não o colocar em qualquer aborrecimento).

A crise económica agudiza as crises sociais, é certo. Mas a crise social já existe antes desta e é uma crise de valores, em que não se fomenta o respeito pelo Outro, pela vida alheia, pela família, pelo bem-estar pessoal que não coloque em risco o bem-estar dos outros. Isso também está a acontecer na vida citadina local.

Há que reeducar. Há que repensar os conceitos que estamos a transmitir aos jovens. Somos nós (os adultos, os irmãos mais velhos, os pais, os tios, os avós) os responsáveis pela educação dos mais jovens. Responsáveis não só por transmitir, mas também por punir comportamentos não aceitáveis. Mas não são aceitáveis, também, comportamentos, como os que se vê diariamente nos adultos, de malcriação na linguagem utilizada, de falta de civismo na estrada e em todo o lado, seja no café, seja numa assembleia municipal ou regional, seja perante amigos, seja perante os próprios filhos. E não será por falta de acesso à instrução, pois a população da Madeira nunca teve, como agora, acesso a níveis tão elevados de instrução como os que tem agora, cujo expoente máximo é o acesso à universidade! A educação para a cidadania começa em casa, não na escola. Os responsáveis estão na família, não nos professores.

Porque não sou cega, também vejo com pena a Madeira a adoptar comportamentos globais não aceitáveis. A violência do crime é apenas a ponta do icebergue.

Agora que as luzes do Natal serão acendidas, lamento as trevas nalguns lares onde esta violência toda bateu à porta.

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