sangria

Este post não é sobre álcool, mas sim sobre empresas, sobre recursos humanos e sobre qualidade. Embora para se analisar estas três vertentes seja necessário um pouco de lucidez, a verdade é que a palavra mais adequada de que me lembro para o que se está a passar neste nosso país é sangria, a sangria desalmada destes três factores: o encerramento diário de empresas, a desconsideração pelos recursos humanos do país e a consequente falta de qualidade de vida e do produto nacional.

As empresas nacionais, as pequenas e médias empresas nacionais (a maioria do nosso tecido empresarial) vêem agora, como nunca antes, no encerramento, nas insolvências e nos despedimentos da sua massa laboral o único remédio e salvação para a falta de recursos financeiros que estão a enfrentar. Quando resolvem despedir, o que não lhes tem sido muito difícil pois o têm feito diariamente, começam pelos trabalhadores mais qualificados, os mais caros em termos salariais. Ficam os menos qualificados a trabalhar, os que aguentam estoicamente o trabalho deles e o dos outros, logicamente feito com níveis de qualidade muito inferiores, mas ficam até a ultima gota de moeda sair da empresa (ou antes, entrar na empresa). A quantidade de recursos humanos qualificados a perder o emprego nunca foi tão elevada como agora.

Os empresários do nosso país, no entanto, nunca ficam mal, em termos pessoais. Conhecemos todos casos inúmeros destes. Conheço uma empresa que foi à falência, onde os funcionários foram quase todos despedidos e uma minoria absorvida por uma empresa associada, mas na qual, durante os anos áureos de vendas e produção,  o patrão construíu a sua super mega casa  e comprou os seus carros topo de gama. A empresa, essa, não tinha recursos. Conheço uma outra, em funcionamento ainda, mas em condições que deixam já antever o futuro igual à primeira, em que o patrão pediu a colaboração e o sacrifício dos trabalhadores para dispensarem uma parte das ajudas de custo e dos prémios  a que estavam habituados de forma a ajudarem a manter a empresa,  mas que, uns meses depois, chegou à porta da empresa com um Porsche novinho em folha. Outra aqui, outra ali, outra acolá, as histórias repetem-se, iguais na novela, apenas com algumas variações nos episódios. A sangria é sempre a mesma.

A sangria é a do desvio sistemático de recursos financeiros para os bolsos pessoais, resultando em fortunas rápidas e chorudas, em vez de serem aplicadas nos recursos próprios da empresa, da sociedade. A sangria é a dos recursos humanos, em especial dos mais qualificados, que está a acontecer, os quais ou emigram ou ficam no desemprego. No primeiro caso, perde a Nação. No segundo, o Estado (todos nós) perde e assume o encargo com os subsídios de desemprego e sobrevivência. A empresa, essa, fecha, insolvente. Fica o país sem produção, o Estado sem os seus meios e sem impostos, o cidadão sem o pão.

Porque não se pára esta sangria? Porque é que o Estado não está a fazer nada para obrigar as empresas a manter os postos de trabalho? Como? Uma ideia que ouvi recentemente não me parece muito disparatada: por exemplo, entregando às empresas em dificuldades (e com o devido controlo, claro!) o valor do subsídio de desemprego que entregaria ao funcionário despedido, obrigando-a a manter esse funcionário no activo, em vez de estar a entregar dinheiro ao despedido para ficar em casa? Mantinha, assim, a empresa em funcionamento, mantinha o posto de trabalho, mantinha os níveis sociais relativamente tranquilos e ocupados, mantinha a produção nacional e incutia às empresas, à força, a responsabilidade social que estão a esquecer. Porque uma empresa é um projecto económico e social, uma empresa chama-se sociedade e não é por acaso. Respeite-se esta vertente social, mantenha-se os trabalhadores nos seus postos, pois só assim se poderá evitar a rebelião social que se está já a formar, seja no meio político, seja na rua, seja na família. Já o sabiam os comandantes dos antigos navios, que marinheiro desocupado e com fome não dava bom marujo e só instigava ao motim. E quando o ciclo da retoma viesse, os recursos estariam activos e não amorfos ou inexistentes.

Continue-se a sangria dos recursos humanos, da qualidade, das empresas,  e estaremos brevemente todos em motim, a lutar pelo pão, a sobreviver em economia paralela. A quem interessa beber deste cálice de sangria?

Este artigo foi escrito a propósito desta notícia da Delphi (mais uma): http://bit.ly/e8Ao7N

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s