a propósito de ser parva

Tem feito furor a canção dos Deolinda “Que parva que eu sou“, no seu verso mais forte “para ser escravo é preciso estudar”.

E veio-me isto a propósito de me lembrar dos meus tempos de criança e do quanto o meu pai e a minha mãe trabalharam para nos dar não só de comer mas, acima de tudo, uma educação que nos permitisse sermos mais instruídos do que eles tinham tido oportunidade de ser. Nunca me lembro de ter ouvido o meu pai dizer: “Estuda para poderes ter um trabalho melhor”. O meu pai dizia sempre: “Estuda para saberes cada dia mais coisas!” e “O saber não ocupa lugar”.

Os meus pais tinham apenas a antiga quarta classe. Mas meu pai era um homem culto para a época e era encadernador. O seu contacto diário com os livros fazia com que, à noite, quando trazia trabalho extra para fazer em casa, de forma a ganhar mais uns míseros escudos por mês, interrompesse frequentemente o coser de mais um caderno para nos chamar, a mim e aos meus irmãos mais novos, para lermos algo na National Geographic Magazine (*). E nós íamos a correr para vermos o que era um leão, uma zebra, uma constelação, o Grand Canion ou a Torre Eiffel. O meu pai só conhecia aquelas coisas todas dos livros que encadernava e de alguns a que, de vez em quando, se dava o luxo de comprar, contra as brigas da minha mãe, mulher mais virada para os afazeres terrestres, que reclamava por mais uns trocos para nos preparar a sopa de todos os dias.

Lembro-me muitas vezes de algumas conversas mais “picadas” entre o meu pai e a minha mãe sobre esta divergência entre sabedoria a adquirir e trabalho a fazer. Pela minha mãe, teríamos começado logo a trabalhar em tenra idade, para “ajudar nas despesas”. O meu pai sempre se opôs e graças a ele, todos nós sete finalizámos os estudos secundários, sendo apenas os dois mais novos, já em tempos mais recentes, os que finalizaram curso superior. Todos nós guardámos na nossa maneira de ser, para toda a vida, a mensagem de que devemos sempre aprender pelo prazer de cada dia sabermos mais. Saber por saber.

Por isso, não concordo com o espírito desta canção, embora entenda a questão social actual que a torna um sucesso. É que não há razão, quanto a mim, para se partir do pressuposto de que, pelo facto de estudarmos, isso nos garanta qualquer direito automático a um trabalho. Ainda para mais quando, nos dias de hoje, todos têm acesso a níveis de estudo cada vez mais elevados e, portanto, ter um curso superior já não significa diferenciação, por si só.

Talvez eu esteja a ser parva mas nunca me senti escrava por estudar. E se um dia for escrava, ao menos que tenha conhecimentos para saber questionar a condição.

(*) O meu pai tinha um cliente que acumulava as suas National Geographic Magazine e depois, regularmente, mandava-as encadernar em colectâneas, ao meu pai. A National Geographic Magazine foi a minha internet na infância. Ainda hoje não consigo deitar fora uma destas revistas. Grata para sempre por toda a curiosidade que me despertou, desde a minha infância.

2 thoughts on “a propósito de ser parva

  1. Olá Linda boas tardes.

    Não deixa de ser um ponto de vista pertinente…confesso que apenas ontem ouvi essa música pela primeira vez!

    Os meus pais também têm a antiga 4ª classe e também defendo que o “canudo” por si só não faça milagres, embora ajude! Há muita gente licenciada que pelas dificuldades actuais nem põe em prática o que aprende…

    Knowledge is power! Eu sou dessa opinião por isso estou tentando investir no meu futuro em busca de novos desafios e simultaneamente combater a estagnação na carreira. Tal como tu, não me sinto escrava do saber; do aprender; do conhecimento!!
    Estudar Turismo tem sido um verdadeiro desafio! Quanto ao resto….a ver vamos!

    Um beijinho e continuações,

    Xana Abreu

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