urbe no século XXI, a pessoa e o ambiente

O crescimento desenfreado das cidades tem colocado dificuldades, desafios e problemas que não se confinam apenas à mobilidade mas também à gestão política, social e económica, em especial no que ao próprio urbanismo diz respeito. Apesar de as cidades poderem constituir reservatórios de oportunidades económicas, o crescimento urbano gera desafios enormes aos gestores dos serviços públicos, que enfrentam a dificuldade de gerir o espaço e os recursos, assegurando um mínimo de condições vital para os habitantes.

A resposta a dar a este tipo de desafio é múltipla: por um lado, é necessário dotar de meios os agentes locais (autoridades, sociedade civil, sector privado); por outro, é necessário melhorar a qualidade dos serviços públicos básicos e adaptá-los às necessidades evolutivas das populações residentes e em trânsito. Isto aplica-se a habitação, veículos, meios de subsistência, meios tecnológicos, meios de comunicação, etc.

O ambiente, a ecologia e o urbanismo estão, assim, interligados na preocupação política e social de protecção às populações urbanas, que vivem confinadas num espaço organizado onde economia é uma das palavras-chave de maior peso e aglutinadora do próprio conceito de cidade.

Numa referência à minha realidade local da cidade do Funchal e na sequência das graves aluviões que sofreu em 20 de Fevereiro de 2010, muito se tem questionado sobre a necessidade e oportunidade de repensar o urbanismo como forma de evitar desastres ecológicos que têm sempre consequências dramáticas para a população.

Este não é um desafio fácil, pois os intervenientes incluem os responsáveis pela gestão dos serviços públicos locais e suas respectivas políticas de urbanismo, as populações e suas actividades económicas e sociais e, finalmente, os meios físicos em termos de infraestruturas urbanas existentes ou a implementar. Exige-se dos primeiros a responsabilidade de apontar os caminhos e as soluções, dos segundos exige-se a participação activa na discussão das mesmas e na adopção de práticas ambientais e sociais benéficas para a urbe; dos meios físicos implementados ou a implementar, exige-se modernidade, adequação e disponibilidade.

A necessidade de repensar o urbanismo é contínua, não se limitando a estes episódios de catástrofes. No entanto, são estes que obrigam a soluções estratégicas mais discutidas pelos responsáveis políticos mas, em especial, pelos cidadãos que, em cidadania activa, defendem o direito de fazer parte das soluções encontradas.

Uma das maiores discussões actuais na Madeira, pós 20 de Fevereiro, é o enorme aterro que foi criado na frente mar da baía do Funchal. Este aterro foi a solução imediata e supostamente temporária encontrada para a retirada dos destroços e lamas do centro da cidade, que impediam a vida citadina. Resolvido o problema imediato da circulação, da vida diária dos habitantes que precisavam das estradas para deslocar-se para o trabalho, para a escola, para o mercado, para o centro de saúde, para casa, surge agora o problema na sua dimensão geral e futura da urbe: o que fazer com este aterro? Deixá-lo no local? Removê-lo? Para onde? Como? Quais as vantagens e as desvantagens de o deixar no local ou de o remover? Como adaptar a cidade ao aterro? Como adaptar o aterro à necessidade da cidade? Atrapalha? Beneficia? Considerá-lo como um novo recurso ou antes como um despojo urbano?

É na busca destas respostas que se exige um repensar da cidade no seu todo, como um espaço onde possam co-habitar, em qualidade mas também em quantidades devidamente dimensionadas, tanto pessoas locais quanto visitantes, numa utilização equilibrada dos recursos: alojamento, vias, água, energia, etc.

Não é pacífica a vida na cidade, dada a confinação de uma grande quantidade de pessoas num espaço limitado. Deveria ser uma condição de aproximação dos humanos mas tem-se revelado, pelo contrário, sinónimo de maior individualismo e distanciamento. Não é por acaso que muitos defendem o repovoamento como forma de dispersão da cidade e duma maior humanização das populações. Se este propósito se torna facilitado pelas novas vias de acesso, pela modernização de condições de vida nos locais ditos rurais, o que é um facto é que sempre, ao longo dos últimos séculos, a cidade tem sido o ponto de atracção, de convergência e de progresso do mundo actual. Se, e como, a urbe será ou não imprescindível para o progresso equilibrado e sustentado é uma discussão que se torna necessária para todos quantos querem  merecer o futuro.

Linda Machado
Community Manager

Publicado na Revista Via Latina #8 Série VI – Março 2011 – Reinventar a Cidade, página 122, uma publicação de Via Latina – Fórum de Confrontação de Ideias, Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra.

Com o meu sincero agradecimento.

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